A mirabolância do homem comum

Em alguns momentos você precisa simplesmente fazer uma opção por você e começar a abandonar certos sonhos pouco realistas, dedicando-se aos menores e mais possíveis. (Nota explicativa: mês que vem, em setembro, faço trinta anos, então de repente é por isso que estou assim tão pensativa sobre o futuro, sonhos, expectativas etc. e tal.) Mas esse papo furado não tem nada a ver (ou quase nada) com autoajuda ou outra onda dessas, e sim com uma sensação que começa a diminuir à medida que a gente amadurece: a mirabolância.

Explico.

Quando somos jovens, e digo jovens mesmo, na adolescência ou saindo dela, sentimos quase sem querer que o nosso futuro é grande e promissor. Você não pensa só em sair da casa dos seus pais e ser independente. É muito mais do que isso. A gente sente, e de repente nem percebe isso muito bem, que o amanhã é belo, que nós somos ótimos, inteligentes, que vamos conquistar tudo o que queremos e por aí vai. Isso, no meu caso, por exemplo, significava mais ou menos o seguinte: viajar muito, circular pelo mundo todo, conhecer muita gente, ler muitos livros e assistir muitos filmes, ser descolada, independente, prafrentex. Resumindo: ter uma vida interessante e divertida, apesar dos compromissos, e, é óbvio, que essa vida seja completamente diferente da dos nossos pais, que geralmente achamos um tédio sem fim e não entendemos como eles aguentam.

Mas eis que de uma hora para outra, quando menos espera, você se torna exatamente aquilo de que você pretendia se distanciar e percebe que a vida não é nada daquilo que costumava imaginar enquanto ia e voltava da escola nos anos noventa. Os filmes, você não consegue assistir, dorme no meio (aliás, deitar confortavelmente se torna um verdadeiro perigo – é só encontrar uma posição gostosinha na cama e pronto: dormiu, e adeus filminho). E assim vamos indo, nem preciso mostrar muitos exemplos dessa coisa, porque, além de ser meio deprimente para os eventuais leitores novinhos, a essa altura os trintões ou quase já viram tudo e se identificaram com a ilustrativa deitadinha-aconchegante-bye-bye-filme-ou-qualquer-outra-coisa. Sim, essa lógica vale para aquilo também, é claro. Quem nunca passou por isso que atire a primeira pedra…

(Antes de continuar, uma ressalva: é claro que nada disso se aplica às pessoas que moram com a família. Nesse caso a situação pode ser bem diferente…)

Tudo isso, essa mudança que começa a rolar no dia a dia da pessoa de quase trinta, pode fazer você sentir uma coisa outra: uma certa depressão, ou aquela sensação de “putz, o que foi que eu me tornei?” (será que é a mais comum?), ou então um certo deixa para lá, ou “ah, esquece, a vida é assim mesmo para todo mundo”.

Durante um bom tempo, infelizmente por um período maior do que eu gostaria, e me arrependo bastante disso, me enquadrei no primeiro padrão, e me mantive pensando coisas como “que droga, olha só o que eu virei..”. Agora é que estou começando a passar para o outro lado, e tentando pensar: Não, a vida de uma pessoa comum como eu e, arrisco dizer, de outros tantos bilhões (abro mais um parêntese aqui para reproduzir a máxima muito sábia que aprendi com meu pai e repito sempre que posso: “Quem não rouba e não herda permanece na m…”), a vida as pessoas comuns não é tão divertida assim; tem gente em situação muito pior; quase ninguém consegue sair pelo mundo viajando e conhecendo um monte de gente bacana; nem todo mundo tem a sorte de andar de carro, comprar um imóvel ou ser um profissional de sucesso; a maioria morre de sono cedo e sente que o dia passou como se fosse um flash, não dá conta dos livros que gostaria de ler, dos amigos para quem queria telefonar, dos filmes que pretendia assistir. O resto pode ser pura mirabolância.

Tudo fica mais fácil se você tentar repetir um mantra do tipo: “Cara, é assim mesmo, a gente não pode dar conta de tudo. Vamos relaxar e aproveitar o que dá.” E ponto final. Game over.

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