Engraçado como, só de pensar em sair de onde está, é abatida pelo desânimo. “O Rio de Janeiro está tão falido e acabado.” Ela trabalha em um prédio bonito e antigo, bem preservado, no Centro da cidade. Um pátio interno cheio de palmeiras imperiais, uma bela estátua e um anfiteatro fazem com que esqueça, por algumas horas, o que há à sua volta.
Mas sua postura muda, radicalmente, assim que se aproxima do enorme e pesado portão de ferro. Segura firme a alça da bolsa e a encosta no peito com toda a força. Em vez de olhar para frente ou para o entorno, mira o chão, que, logo vê – e sente –, tem mijo, papel, plástico, gente. Toma cuidado para não atropelar nenhum ambulante. “Que inferno, isto parece um feira, um pátio dos milagres”, reclama por dentro, mas não diz.
Uma multidão de gente apressada, em boa parte mal-educada, cansada, esmolambada, corre em direção à Central do Brasil, “como se adiantasse alguma coisa” – a distância é tão grande e o engarrafamento idem. “Coitados.”
Nesse meio tempo, um plus: tiros. “Ah, foram poucos, já passou.” E continua, impassível, seu caminho, como se houvesse alguma normalidade em tudo aquilo. Diante do caos, o homem demonstra porque possui o maior cérebro, abstraindo o que parece não ter jeito mesmo, ora essa.
Finalmente, ela chega no ponto de ônibus. De cara, mais um sinal da desordem que tanto a incomoda e intriga: carros e coletivos entalados em um dos cruzamentos mais movimentados da cidade. “Mas onde será que estão os guardas numa hora dessas?”. Ah, ali na esquina, com o apito no bolso, moça. Deprimente.
Ela entra. Na parada seguinte, um incômodo ainda pior para o seu temperamento metódico, certinho – tão inadequado em lugar como aquele. Dois homens normais pedem “uma carona até ali”. E o motorista, o que faz? Ora, se o leitor é conterrâneo da moça, com certeza conhece o desfecho: um baixar de cabeça, um meio-sorriso e portas abertas. Ela olha para os pés: sua vontade é sumir, gritar, “eu não quero, eu não concordo, eu não”. A sensação de não pertencimento, de inadequação, de desprezo, beira o insuportável. Náusea.
Não tem certeza se vem dos intrusos, mas ouve o barulho de um pandeiro. Não, não é música o que escuta, mas uma batida sem melodia, um ruído para ela desprezível, intruso como eles, com a voz alta, dizendo coisas naquele falar que ela conhece bem e que torna a lacuna ainda maior.
Talvez seja ela a forasteira por aquelas bandas.
