Este foi um dia muito especial para Ana. Após anos sem sair sozinha, assim à toa, sem compromisso, aquela ida ao museu para uma sessão de curtas teve um gostinho insuperável de vitória. A partir de agora, tudo seria diferente, pois a barreira fora finalmente ultrapassada.
Ao chegar ao edifício, peito inflado de orgulho, pega as cartas no escaninho ainda sentindo no rosto a brisa da praia. Que sensação boa. Agora ela entende como todas aquelas pessoas aproveitam tão bem as coisas, apesar de parecerem tão solitárias. Aquela amiga que saía para ir ao cinema e tomar um café expresso no shopping já não lhe parece assim tão estranha. Pode ser apenas uma escolha, não um sinal absoluto de solidão. Os filmes nunca tiveram um papel tão importante na sua vida como hoje. “Agora eu também posso.”
Ana se flagra, então, pensando no que poderia lhe causar essa sensação de estranhamento ao andar sozinha sem um destino normal, obrigatório, como trabalho-casa-mercado-dentista-casa de amiga. “É a cultura. Nós mulheres não fomos acostumadas a conhecer, a desbravar, a nos aventurar a olhares e abordagens, a estar no mundo de forma independente e voluntária.” Mas seria apenas isso? “O problema pode ser comigo, sou insegura, acho que todos olham para mim e pensam: coitada, ninguém a quer, anda visitando museus e assistindo filmes sozinha numa tarde de sábado”.
Sim, essas sementinhas ainda estão na cabeça de Ana, mas, com certeza – e ela, melhor do que ninguém, percebeu isso – nunca mais será a mesma depois daquela tarde.
