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Brasil: uma história

capa_eduardobuenoEstou lendo o livro do Eduardo Bueno, Brasil, uma história: a incrível saga de um país, por acaso, e tive uma sensação maravilhosa ao redescobrir a trajetória do país de um jeito que nunca tinha experimentado.

A figura do Eduardo é bastante midiática, por causa não apenas de seus atributos como historiador, mas de sua habilidade de dizer as coisas mais pesadas ou difíceis de uma maneira simples e acessível.

O livro é um passa-hora superinstrutivo. Ricamente ilustrado, conta a história do Brasil em capítulos curtos, mas muito informativos, desde antes da colonização até o início do século XXI.

Eu, que estou acostumada a lidar com publicações e exposições, como revisora, em que o erudistismo e o tom pomposo se sobrepõem à informação histórica para um público mais amplo, fiquei muito bem impressionada. E o projeto gráfico do Victor Burton, designer renomado, fez toda a diferença.

Escolha a melhor alternativa

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Para morar e trabalhar aqui, é preciso tomar uma decisão. Não sobre o melhor bairro ou o melhor apartamento, mas uma escolha pessoal e interior. Parece papo-furado de autoajuda, no entanto, a cada dia percebo que é mais necessário decidir entre:

1) lutar com as mesmas armas, ou seja, enfrentar a falta de educação com mais falta de educação, dando uma resposta à altura para cada pequeno acontecimento absurdo, no trânsito, na calçada, no ônibus.

(Ah, sim, esses conselhos não se aplicam aos que moram da avenida Vieira Souto e dão um pulinho no escritório da sua própria empresa para dar uma olhadinha.)

2) lutar com as armas contrárias, isto é, com total indiferença, o que acaba levando a um desprezo absoluto em relação a tudo e todos à sua volta.

(Sim, esta alternativa é bastante sedutora, mas igualmente arriscada para a cidade no longo prazo.)

3) não lutar, quer dizer, deixar de circular pela cidade sempre que isto não for necessário. Por exemplo, sair e voltar do trabalho, da escola ou faculdade, ou visitar os seus pais e amigos.

(Minha teoria, inclusive, é que muito do esvaziamento cultural do Rio de Janeiro – coisa que os cariocas mais velhos percebem muito bem – pode ser visto como consequencia do desânimo de passar um período ainda maior diante de coisas das quais você discorda ou que lhe incomodam, retinando o prazer de estar nas ruas.

É claro que, no dia a dia, acabamos nos comportando das três maneiras, de acordo com nosso humor e com o grau de descontentamento que nos causam as diferentes situações – de ônibus parados sobre a faixa de pedestres e empurrões na calçada, a motoristas que obrigam você a descer no meio da rua com os carros passando.

No entanto, admito que às vezes a apatia é tamanha, que acabamos marcando com mais frequência as alternativas dois e três. Vamos aguardar e ver no que dá.

Fiscal para quê?

Hoje aconteceu uma mais coisa inacreditável. Saí da barca, caminhei um pouco e, na parada de ônibus, a bagunça começou. Formou-se, milagrosamente, uma fila diante do ônibus 47B, da viação Araçatuba – coisa que o pessoal daqui tem muita dificuldade em fazer; na maioria das vezes uns se jogam por cima dos outros querendo entrar primeiro, seja onde for.

Apesar da presença do fiscal da empresa, a coitada da fila, é claro, foi totalmente desrespeitada, com gente entrando por todos os lados e nós, os caretas idiotas enfileirados, olhando para o fiscal e esperando alguma reação. (Não sei por que ainda conseguimos ser tão otimistas.) O detalhe é que o ônibus não estava parado próximo ao meio-fio, como seria normal, mas na diagonal, com a traseira no meio da outra pista. E o fiscal, nada.

Eu e uma mulher ainda estávamos nos degraus, aguardando os da frente passarem pela roleta, quando ouvimos o fiscal dizer ao motorista: “Dá uma puxadinha aí pro cara passar”. Claro, ele foi obedecido, e esta-passageira-que-pagou-R$ 2,20, ou seja, eu, ficou pendurada, com a bolsa e a metade do corpo para fora, enquanto ele andava com o ônibus, dando a tal “puxadinha”, correndo o risco de cair, se machucar e se molhar na enorme poça que se formou ao lado do meio-fio. É deprimente.

Nova seção: Leituras do Rio

130301_16746808O Leituras & Livros tem agora uma nova seção: Leituras do Rio, em que o leitor encontra impressões, sensações e opiniões sobre o dia a dia na cidade do Rio de Janeiro, a partir das idas e vindas de uma niteroiense que atravessa a Baía de Guanabara, praticamente, desde que começou a trabalhar do lado de lá, ou seja, há mais ou menos seis anos.

Pode parecer um período curto, mas quem mora ou trabalha por essas bandas sabe que muita coisa mudou no Rio em pouco tempo, a ponto de às vezes nos perguntarmos o que estamos fazendo aqui, afinal.

O objetivo, então, na verdade são dois: colocar para fora, por meio da escrita, toda a minha estranheza diante do que vejo, e compartilhar essas sensações com outras pessoas – porque, tenho certeza, não sou a única a me decepcionar e indignar todos os dias com a desordem e a ilegalidade que se alastrou pela cidade.

Essa situação pode até não ser percebida por algumas pessoas, mas incomoda demais a muitas outras que, como eu, estão tendo uma dificuldade cada vez maior de se sentir parte, de se reconhecer aqui, o que pode acabar contribuindo para tornar tudo ainda pior, com o auxílio da indiferença.

Espero que os leitores cariocas não se sintam ofendidos, porque não são simples reclamações de uma niteroiense chata e amargurada sobre a Cidade Maravilhosa, tão alegre e descontraída, mas de algumas impressões sinceras e baseadas no cotidiano sobre uma capital que já foi assim, mas que hoje esta bem diferente.

O amor nos tempos do cólera

Poster do filme "O amor nos tempos do cólera", adaptação do clássico de García Márquez

Poster do filme "O amor nos tempos do cólera", adaptação do clássico de García Márquez

Quem não sonha com uma companhia na velhice? Até eu, que tenho vinte e sete, já comecei a sonhar.

Talvez, no fundo, seja por isso que tantos insistem em manter relacionamentos que parecem ter tudo para dar errado. Ainda que saibamos disso, continuamos indo em frente, no fundo, por medo.

Não um medo ruim, doentio, mas um medo bom, se é que se pode chamar assim, que nos faz ponderar antes de correr após o primeiro susto.

Os homens jogam e nós sonhamos, esse parece ser o destino. Mas quando homens sonham, são capazes de encantar as mulheres, como fez o Florentino de Gabriel Garcia Márquez em O amor nos tempos do cólera. Acabei de assistir a esta adaptação linda para o cinema. Me faltou o ar para respirar.

Mal-estar na cidade

Engraçado como, só de pensar em sair de onde está, é abatida pelo desânimo. “O Rio de Janeiro está tão falido e acabado.” Ela trabalha em um prédio bonito e antigo, bem preservado, no Centro da cidade. Um pátio interno cheio de palmeiras imperiais, uma bela estátua e um anfiteatro fazem com que esqueça, por algumas horas, o que há à sua volta.

Mas sua postura muda, radicalmente, assim que se aproxima do enorme e pesado portão de ferro. Segura firme a alça da bolsa e a encosta no peito com toda a força. Em vez de olhar para frente ou para o entorno, mira o chão, que, logo vê – e sente –, tem mijo, papel, plástico, gente. Toma cuidado para não atropelar nenhum ambulante. “Que inferno, isto parece um feira, um pátio dos milagres”, reclama por dentro, mas não diz.

Uma multidão de gente apressada, em boa parte mal-educada, cansada, esmolambada, corre em direção à Central do Brasil, “como se adiantasse alguma coisa” – a distância é tão grande e o engarrafamento idem. “Coitados.”

Nesse meio tempo, um plus: tiros. “Ah, foram poucos, já passou.” E continua, impassível, seu caminho, como se houvesse alguma normalidade em tudo aquilo. Diante do caos, o homem demonstra porque possui o maior cérebro, abstraindo o que parece não ter jeito mesmo, ora essa.

Finalmente, ela chega no ponto de ônibus. De cara, mais um sinal da desordem que tanto a incomoda e intriga: carros e coletivos entalados em um dos cruzamentos mais movimentados da cidade. “Mas onde será que estão os guardas numa hora dessas?”. Ah, ali na esquina, com o apito no bolso, moça. Deprimente.

Ela entra. Na parada seguinte, um incômodo ainda pior para o seu temperamento metódico, certinho – tão inadequado em lugar como aquele. Dois homens normais pedem “uma carona até ali”. E o motorista, o que faz? Ora, se o leitor é conterrâneo da moça, com certeza conhece o desfecho: um baixar de cabeça, um meio-sorriso e portas abertas. Ela olha para os pés: sua vontade é sumir, gritar, “eu não quero, eu não concordo, eu não”. A sensação de não pertencimento, de inadequação, de desprezo, beira o insuportável. Náusea.

Não tem certeza se vem dos intrusos, mas ouve o barulho de um pandeiro. Não, não é música o que escuta, mas uma batida sem melodia, um ruído para ela desprezível, intruso como eles, com a voz alta, dizendo coisas naquele falar que ela conhece bem e que torna a lacuna ainda maior.

Talvez seja ela a forasteira por aquelas bandas.

Este foi um dia muito especial para Ana. Após anos sem sair sozinha, assim à toa, sem compromisso, aquela ida ao museu para uma sessão de curtas teve um gostinho insuperável de vitória. A partir de agora, tudo seria diferente, pois a barreira fora finalmente ultrapassada.

Ao chegar ao edifício, peito inflado de orgulho, pega as cartas no escaninho ainda sentindo no rosto a brisa da praia. Que sensação boa. Agora ela entende como todas aquelas pessoas aproveitam tão bem as coisas, apesar de parecerem tão solitárias. Aquela amiga que saía para ir ao cinema e tomar um café expresso no shopping já não lhe parece assim tão estranha. Pode ser apenas uma escolha, não um sinal absoluto de solidão. Os filmes nunca tiveram um papel tão importante na sua vida como hoje. “Agora eu também posso.”

Ana se flagra, então, pensando no que poderia lhe causar essa sensação de estranhamento ao andar sozinha sem um destino normal, obrigatório, como trabalho-casa-mercado-dentista-casa de amiga. “É a cultura. Nós mulheres não fomos acostumadas a conhecer, a desbravar, a nos aventurar a olhares e abordagens, a estar no mundo de forma independente e voluntária.” Mas seria apenas isso? “O problema pode ser comigo, sou insegura, acho que todos olham para mim e pensam: coitada, ninguém a quer, anda visitando museus e assistindo filmes sozinha numa tarde de sábado”.

Sim, essas sementinhas ainda estão na cabeça de Ana, mas, com certeza – e ela, melhor do que ninguém, percebeu isso – nunca mais será a mesma depois daquela tarde.

Mudança de visual

O blog Leituras & Livros mudou de cara, mas a linha permanece a mesma: muita literatura, mercado e produção editorial, a partir das minhas impressões, experiências e conversas como editora de texto!

O ilustrador e os direitos autorais

A discussão sobre o pagamento de direitos autorais a ilustradores de livros infanto-juvenis tem tomado fôlego nos últimos meses. E a reinvindicação desses profissionais faz mesmo sentido. Talvez em nenhum segmento o papel das ilustrações seja tão importante como na literatura para crianças e jovens, mas é claro que ainda virá um longo debate.

Em alguns livros, a narrativa visual é tão ou mais essencial ao entendimento da trama, ao resultado final, que fica difícil dizer que o autor é apenas um, o do texto verbal. Nesses casos, o texto visual assume uma dimensão que ultrapassa a simples ilustração e, realmente, me parece correto compartilhar os direitos autorais.

Nesse sentido, tenho visto alguns ilustradores assinarem como diretores de arte das publicações em que trabalham, o que pode não ser tão justo assim. Conversando com uma amiga designer semana sobre isso, chegamos à conclusão de que existem muitas escolhas e preocupações que são de responsabilidade do designer gráfico e que não tiram o sono dos ilustradores.

Estes se dedicam mais à elaboração das ilustrações, à sua coerência com o texto da obra, mas não lidam com os aspectos de design e produção gráfica e, por isso, não deveriam assinar como diretores de arte, mas sim como ilustradores que são.

Exceção feita, é claro, àqueles que são também designers e podem atuar como tal, sobretudo em razão de sua formação.

Enfim, estes são alguns pitacos iniciais, porque essa conversa ainda vai dar muito o que falar. Afinal, o segmento infanto-juvenil, seja de literatura ou de didáticos, movimenta muito dinheiro, as tiragens são bem maiores que as demais e, por isso, toda discussão tende a ser acalorada e suscitar muito disse-me-disse.

Como sou jornalista, mesmo não trabalhando na área, não posso deixar de comentar a “queda” do diploma para o exercício da profissão. Sinceramente, não absorvi bem essa ideia de a obrigatoriedade ser inconstitucional. Afinal, sempre houve, nos veículos, liberdade para colunistas, comentaristas, articulistas e todos os istas possíveis e imagináveis.

Lendo os comentários sobre a notícia no portal Comunique-se, fiquei impressionada com os argumentos que algumas pessoas apresentaram a favor da decisão do STF.

Por exemplo, que os cursos de graduação são muito ruins e não adiantam nada mesmo. Então, respeitada essa lógica, teríamos que acabar com a obrigatoriedade de diploma para todas as carreiras. Pipocam faculdades que facilitam a entrada e a saída, importando apenas o pagamento em dia das mensalidades. Isto, então, seria razão para se parar de exigir a passagem pelos cursos de graduação? O Brasil sempre sai com as respostas mais cômodas, mas menos efetivas para os problemas.

Aliás, o jornalista, coitado, não servirá mais para nada. A assessoria de imprensa já é compartilhada em uma batalha constante com os profissionais de relações públicas – sem entrar no mérito de quem está com a razão – e agora o próprio jornalismo não é mais para jornalistas. Não parece um pouco demais?

Já que o diploma não é mais obrigatório, poderiam pelo menos estabelecer um curso de especialização, como ocorre em alguns países. Como se fosse uma formação em psicanálise, que qualquer profissional pode fazer, mas é necessária para o exercício da atividade.

Afinal, os estudantes de jornalismo aprendem muitas coisas, cursam muitas disciplinas na faculdade que ultrapassam a técnica, ao contrário do que muitos, que estão de fora, podem pensar.

Eu é que não queria ser estudante numa hora dessas. Mudaria de curso na hora.

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