Ele, sinceramente, tenta, mas alguma coisa o impede de ser totalmente favorável às possíveis Olimpíadas na cidade do Rio. Sente como um mosquitinho, lhe zumbindo na orelha e dizendo “não, não e não”. Nos últimos anos, percebe que se torna cada vez mais radical – ou mais sensato, não sabe dizer. Sua tendência é concordar apenas com investimentos em urbanização, inserindo as imensas áreas da capital que se encontram completamente fora da “cidade” propriamente dita, e em educação, inserindo – o termo se repete porque a inserção deveria ser, para ele, o centro de qualquer discussão sobre o Rio – crianças e adolescentes dessas mesmas regiões na escola. O restante – Olimpíadas, Jogos Pan-Americanos, Cidade da Música - lhe soa despropositado, fora de contexto, e ele se sente, como sempre, um peixe fora d’água.
“Será que o pessoal lá fora já ouviu falar do limbo do serviço público?”, ele pensa, inquieto na cadeira. “Aquela coisa meio kafkiana, que não ata nem desata, e leva até os mais pacientes ao desespero profundo? Pois é, acontece mesmo”, conclui sobre o que tem visto cada vez com mais clareza.
Perdeu a paciência diversas vezes nos últimos dias. Por que insistem em tornar o que é simples, difícil? Mergulhados em meandros, dobras de tecidos infindáveis, mortos, apáticos, mas reclamões. “Bebês chorões. Cansados de sair todos os dias de casa, mas não tão exaustos para se desfazer de certas benesses, monetárias, diga-se de passagem.” Naquele ambiente morno, doentio, tedioso, sente suas energias irem embora, canalizadas para as amarguras de não poder fazer nada.
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É impressionante como o revisor de texto sofre. Os colegas devem conhecer bem esse enredo e, com certeza, já se enredaram nele alguma vez. O revisor lê, reescreve, relê, dá mais uma lida para ver se ficou tudo certinho e, no final, sai tudo erradinho, porque fugiu do controle dele.
É mais ou menos o seguinte: a produção editorial prevê essa etapa fundamental que é a chamada revisão de provas, de arte final ou de texto diagramado, seja qual for o termo usado.
Mas alguns diagramadores, com o argumento da pressa, não permitem que nós tenhamos acesso às versões finais dos trabalhos, que podem ser desde livros e revistas, até exposições e banners.
E então, se acontece alguma coisa, o seu nome está lá nos créditos, fazendo papel de bobo ou, pior, de incompetente. É deprimente. Nunca ouvi falar disso em editoras (por favor, me contem se souberem de algum caso), mas, no serviço público, tudo é possível, inclusive isso.
Conselho ao revisor que ainda não passou por isso: se, em algum momento, impedirem você de fazer a última revisão do material em que estiver trabalhando, peça para retirarem o seu nome dos créditos da edição de texto ou da revisão.
Com esse pedido, no máximo, alguém fica constrangido e lhe dá uma print ou, no mínimo, não é você que vai se dar mal, porque não está assinando o trabalho.
Anote aí essa dica. Se ainda não precisou, o seu dia chegará.
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Estou lendo o livro do Eduardo Bueno, Brasil, uma história: a incrível saga de um país, por acaso, e tive uma sensação maravilhosa ao redescobrir a trajetória do país de um jeito que nunca tinha experimentado.
A figura do Eduardo é bastante midiática, por causa não apenas de seus atributos como historiador, mas de sua habilidade de dizer as coisas mais pesadas ou difíceis de uma maneira simples e acessível.
O livro é um passa-hora superinstrutivo. Ricamente ilustrado, conta a história do Brasil em capítulos curtos, mas muito informativos, desde antes da colonização até o início do século XXI.
Eu, que estou acostumada a lidar com publicações e exposições, como revisora, em que o erudistismo e o tom pomposo se sobrepõem à informação histórica para um público mais amplo, fiquei muito bem impressionada. E o projeto gráfico do Victor Burton, designer renomado, fez toda a diferença.
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Para morar e trabalhar aqui, é preciso tomar uma decisão. Não sobre o melhor bairro ou o melhor apartamento, mas uma escolha pessoal e interior. Parece papo-furado de autoajuda, no entanto, a cada dia percebo que é mais necessário decidir entre:
1) lutar com as mesmas armas, ou seja, enfrentar a falta de educação com mais falta de educação, dando uma resposta à altura para cada pequeno acontecimento absurdo, no trânsito, na calçada, no ônibus.
(Ah, sim, esses conselhos não se aplicam aos que moram da avenida Vieira Souto e dão um pulinho no escritório da sua própria empresa para dar uma olhadinha.)
2) lutar com as armas contrárias, isto é, com total indiferença, o que acaba levando a um desprezo absoluto em relação a tudo e todos à sua volta.
(Sim, esta alternativa é bastante sedutora, mas igualmente arriscada para a cidade no longo prazo.)
3) não lutar, quer dizer, deixar de circular pela cidade sempre que isto não for necessário. Por exemplo, sair e voltar do trabalho, da escola ou faculdade, ou visitar os seus pais e amigos.
(Minha teoria, inclusive, é que muito do esvaziamento cultural do Rio de Janeiro – coisa que os cariocas mais velhos percebem muito bem – pode ser visto como consequencia do desânimo de passar um período ainda maior diante de coisas das quais você discorda ou que lhe incomodam, retinando o prazer de estar nas ruas.
É claro que, no dia a dia, acabamos nos comportando das três maneiras, de acordo com nosso humor e com o grau de descontentamento que nos causam as diferentes situações – de ônibus parados sobre a faixa de pedestres e empurrões na calçada, a motoristas que obrigam você a descer no meio da rua com os carros passando.
No entanto, admito que às vezes a apatia é tamanha, que acabamos marcando com mais frequência as alternativas dois e três. Vamos aguardar e ver no que dá.
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Hoje aconteceu uma mais coisa inacreditável. Saí da barca, caminhei um pouco e, na parada de ônibus, a bagunça começou. Formou-se, milagrosamente, uma fila diante do ônibus 47B, da viação Araçatuba – coisa que o pessoal daqui tem muita dificuldade em fazer; na maioria das vezes uns se jogam por cima dos outros querendo entrar primeiro, seja onde for.
Apesar da presença do fiscal da empresa, a coitada da fila, é claro, foi totalmente desrespeitada, com gente entrando por todos os lados e nós, os caretas idiotas enfileirados, olhando para o fiscal e esperando alguma reação. (Não sei por que ainda conseguimos ser tão otimistas.) O detalhe é que o ônibus não estava parado próximo ao meio-fio, como seria normal, mas na diagonal, com a traseira no meio da outra pista. E o fiscal, nada.
Eu e uma mulher ainda estávamos nos degraus, aguardando os da frente passarem pela roleta, quando ouvimos o fiscal dizer ao motorista: “Dá uma puxadinha aí pro cara passar”. Claro, ele foi obedecido, e esta-passageira-que-pagou-R$ 2,20, ou seja, eu, ficou pendurada, com a bolsa e a metade do corpo para fora, enquanto ele andava com o ônibus, dando a tal “puxadinha”, correndo o risco de cair, se machucar e se molhar na enorme poça que se formou ao lado do meio-fio. É deprimente.
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O Leituras & Livros tem agora uma nova seção: Leituras do Rio, em que o leitor encontra impressões, sensações e opiniões sobre o dia a dia na cidade do Rio de Janeiro, a partir das idas e vindas de uma niteroiense que atravessa a Baía de Guanabara, praticamente, desde que começou a trabalhar do lado de lá, ou seja, há mais ou menos seis anos.
Pode parecer um período curto, mas quem mora ou trabalha por essas bandas sabe que muita coisa mudou no Rio em pouco tempo, a ponto de às vezes nos perguntarmos o que estamos fazendo aqui, afinal.
O objetivo, então, na verdade são dois: colocar para fora, por meio da escrita, toda a minha estranheza diante do que vejo, e compartilhar essas sensações com outras pessoas – porque, tenho certeza, não sou a única a me decepcionar e indignar todos os dias com a desordem e a ilegalidade que se alastrou pela cidade.
Essa situação pode até não ser percebida por algumas pessoas, mas incomoda demais a muitas outras que, como eu, estão tendo uma dificuldade cada vez maior de se sentir parte, de se reconhecer aqui, o que pode acabar contribuindo para tornar tudo ainda pior, com o auxílio da indiferença.
Espero que os leitores cariocas não se sintam ofendidos, porque não são simples reclamações de uma niteroiense chata e amargurada sobre a Cidade Maravilhosa, tão alegre e descontraída, mas de algumas impressões sinceras e baseadas no cotidiano sobre uma capital que já foi assim, mas que hoje esta bem diferente.
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Poster do filme "O amor nos tempos do cólera", adaptação do clássico de García Márquez
Quem não sonha com uma companhia na velhice? Até eu, que tenho vinte e sete, já comecei a sonhar.
Talvez, no fundo, seja por isso que tantos insistem em manter relacionamentos que parecem ter tudo para dar errado. Ainda que saibamos disso, continuamos indo em frente, no fundo, por medo.
Não um medo ruim, doentio, mas um medo bom, se é que se pode chamar assim, que nos faz ponderar antes de correr após o primeiro susto.
Os homens jogam e nós sonhamos, esse parece ser o destino. Mas quando homens sonham, são capazes de encantar as mulheres, como fez o Florentino de Gabriel Garcia Márquez em O amor nos tempos do cólera. Acabei de assistir a esta adaptação linda para o cinema. Me faltou o ar para respirar.
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Engraçado como, só de pensar em sair de onde está, é abatida pelo desânimo. “O Rio de Janeiro está tão falido e acabado.” Ela trabalha em um prédio bonito e antigo, bem preservado, no Centro da cidade. Um pátio interno cheio de palmeiras imperiais, uma bela estátua e um anfiteatro fazem com que esqueça, por algumas horas, o que há à sua volta.
Mas sua postura muda, radicalmente, assim que se aproxima do enorme e pesado portão de ferro. Segura firme a alça da bolsa e a encosta no peito com toda a força. Em vez de olhar para frente ou para o entorno, mira o chão, que, logo vê – e sente –, tem mijo, papel, plástico, gente. Toma cuidado para não atropelar nenhum ambulante. “Que inferno, isto parece um feira, um pátio dos milagres”, reclama por dentro, mas não diz.
Uma multidão de gente apressada, em boa parte mal-educada, cansada, esmolambada, corre em direção à Central do Brasil, “como se adiantasse alguma coisa” – a distância é tão grande e o engarrafamento idem. “Coitados.”
Nesse meio tempo, um plus: tiros. “Ah, foram poucos, já passou.” E continua, impassível, seu caminho, como se houvesse alguma normalidade em tudo aquilo. Diante do caos, o homem demonstra porque possui o maior cérebro, abstraindo o que parece não ter jeito mesmo, ora essa.
Finalmente, ela chega no ponto de ônibus. De cara, mais um sinal da desordem que tanto a incomoda e intriga: carros e coletivos entalados em um dos cruzamentos mais movimentados da cidade. “Mas onde será que estão os guardas numa hora dessas?”. Ah, ali na esquina, com o apito no bolso, moça. Deprimente.
Ela entra. Na parada seguinte, um incômodo ainda pior para o seu temperamento metódico, certinho – tão inadequado em lugar como aquele. Dois homens normais pedem “uma carona até ali”. E o motorista, o que faz? Ora, se o leitor é conterrâneo da moça, com certeza conhece o desfecho: um baixar de cabeça, um meio-sorriso e portas abertas. Ela olha para os pés: sua vontade é sumir, gritar, “eu não quero, eu não concordo, eu não”. A sensação de não pertencimento, de inadequação, de desprezo, beira o insuportável. Náusea.
Não tem certeza se vem dos intrusos, mas ouve o barulho de um pandeiro. Não, não é música o que escuta, mas uma batida sem melodia, um ruído para ela desprezível, intruso como eles, com a voz alta, dizendo coisas naquele falar que ela conhece bem e que torna a lacuna ainda maior.
Talvez seja ela a forasteira por aquelas bandas.
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Este foi um dia muito especial para Ana. Após anos sem sair sozinha, assim à toa, sem compromisso, aquela ida ao museu para uma sessão de curtas teve um gostinho insuperável de vitória. A partir de agora, tudo seria diferente, pois a barreira fora finalmente ultrapassada.
Ao chegar ao edifício, peito inflado de orgulho, pega as cartas no escaninho ainda sentindo no rosto a brisa da praia. Que sensação boa. Agora ela entende como todas aquelas pessoas aproveitam tão bem as coisas, apesar de parecerem tão solitárias. Aquela amiga que saía para ir ao cinema e tomar um café expresso no shopping já não lhe parece assim tão estranha. Pode ser apenas uma escolha, não um sinal absoluto de solidão. Os filmes nunca tiveram um papel tão importante na sua vida como hoje. “Agora eu também posso.”
Ana se flagra, então, pensando no que poderia lhe causar essa sensação de estranhamento ao andar sozinha sem um destino normal, obrigatório, como trabalho-casa-mercado-dentista-casa de amiga. “É a cultura. Nós mulheres não fomos acostumadas a conhecer, a desbravar, a nos aventurar a olhares e abordagens, a estar no mundo de forma independente e voluntária.” Mas seria apenas isso? “O problema pode ser comigo, sou insegura, acho que todos olham para mim e pensam: coitada, ninguém a quer, anda visitando museus e assistindo filmes sozinha numa tarde de sábado”.
Sim, essas sementinhas ainda estão na cabeça de Ana, mas, com certeza – e ela, melhor do que ninguém, percebeu isso – nunca mais será a mesma depois daquela tarde.
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